domingo, 25 de abril de 2010

FÁBIO TRAD E SEU DISCURSO NO XLII COLÉGIO DE PRESIDENTES DA OAB/MS EM CORUMBÁ/MS

INESQUECÍVEL E DE UM VERDADE ESPANTOSA ESSE DISCURSO EM 25/09/2009

A Voz e o Gesto
Vivemos tempos de muitos paradoxos em que os avanços e os retrocessos, as conquistas e as perdas, as vitórias e as derrotas da humanidade convivem de forma a não mais impactar o senso comum.
Porém, no âmago destes contrastes, destaca-se uma nota da contemporaneidade que se notabiliza por ser ao mesmo tempo nítida na sensação intuitiva e obscura na percepção racional.
Refiro-me à disposição psíquica - que está a ganhar status de epidemia moral- ao que classifico, pedindo licença, como a cultura dos juízos sumários e implacáveis.
Alimentados pela pressa do preconceito, que é o sintoma degenerado da ansiedade, procuram legitimar os ímpetos liminares que, na verdade, revelam o lado mórbido da natureza humana: todos são juízes dos outros e ninguém mais se preocupa em fazer juízo de si próprio.
Foco, em particular, um aspecto deste patológico estado de ânimo: o hiato que divorcia povo e poder oficial.
O povo não acredita mais nos políticos e nos poderes. O mais grave: o povo está deixando de acreditar na democracia. Isto está claro. Pesquisas de opinião, as mais diversas, já diagnosticaram que, com exceção dos bombeiros e dos carteiros, todos estão com déficit de credibilidade perante o povo.
Entre a democracia e um regime autoritário, não são poucos que optam pelo sacrifício da liberdade em benefício de comida, emprego e casa própria. Neste contexto, todos estamos condenados a sumariar as culpas dos outros:
- Todo político é ladrão.
- A política é uma atividade suja.
- O Judiciário é lento e anacrônico.
- A cadeia é só para pobres.
- Honestidade é coisa do passado.
Neste rosário de deduções cristalizadas no senso comum, os Advogados temos todas as razões para protestar contra o estigma pejorativo que todos os dias golpeia a nossavaidade, afinal trabalhamos coletivamente por valores que transcendem o tempo: justiça, paz, democracia e igualdade e, ainda assim, somos incompreendidos.
O valor da defesa, por exemplo, só é realçado positivamente por quem um dia dela precisou. A maioria, no entanto, influenciada pela insinuante propaganda da mídia, a encara como o instante apropriado para a expansão das armadilhas do advogado. E todos nós passamos a ser chicaneiros.
Os honorários cobrados são vistos como imerecidos, tangendo mesmo uma sutil extorsão, mas pagos pela força da necessidade. E somos todos careiros também.
O saber que instrumentaliza a missão de advogar está vulgarizado, depauperado, assombrado pelas forças da ideologia do auditório.
Hoje, qualquer um advoga e em qualquer lugar. Dos botequins aos palácios, advogar virou sinônimo de falar bem, e, todos advogam oficiosamente, na televisão, no rádio, na internet, nos jornais, nas praias, nos hospitais, nas alcovas, nas praças, nos velórios, nos carnavais. Engenheiros, jornalistas, psicólogos, astronautas, jogadores de futebol, empresários, políticos e até mesmo advogados.
O nosso saber se transformou em uma qualquer coisa de não sei o quê, uma espécie de goiabada com muita abóbora e nenhuma goiaba.
Nossos valores morais, nossos honorários, nosso saber estão sendo arrastados pelacorrenteza dos preconceitos e dos juízos liminares e implacáveis.
Mas a situação poderia ser pior, diria mesmo, catastrófica para a advocacia, se não fosse a principal obra do advogado brasileiro: A ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL.
Ela é quem está freando o ritmo avassalador dos juízos preconceituosos que não toleram a diferença.
Em tempos de cultura da pressa que ridiculariza o contraditório e escarnece da defesa, ela é quem arrosta as percepções sumárias para recordar ao país que democracia não é um simples nome, mas uma prática e um modo de vida.
Em tempos de julgamentos pela imprensa, ela é quem enfrenta as multidões para recordar que para se fazer justiça é preferível pagar o preço da espera de um processo a ceder aos encantos imediatistas dos linchamentos.
Em tempos de corrupção sistêmica a envolver políticos de todos os matizes partidários, ela é quem serve de anteparo ao radicalismo simplista para lembrar que a corrupção é dos políticos e não da política.
Em tempos de relativização dos direitos e garantias individuais, ela é quem denunciaa tentativa de romantizar Guantánamo; ela é quem desnuda a vileza dos espíritos que procuram legitimar a violência como expressão cultural; ela é quem desmistifica a noção vulgar de direitos humanos.
Em tempos de comércio promíscuo que especula sobre o ensino jurídico como se fosse um produto de supermercado, ela é quem se levanta contra a prostituição do conhecimento jurídico, revivendo em nossas memórias o ideal heróico da advocacia, as virtudes elevadas dos grandes advogados, os memoráveis avanços dos anônimos que, privados da glória, fizeram história e existiram como advogados sempre.
Por essas razões, louvo, com a alma genuflexa, a existência da OAB, como sagrada expressão de resistência a tudo quanto atenta contra os valores que a advocacia defende.
Viva a OAB.

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